sábado, 14 de novembro de 2009

Sempre comigo

A caneta mirava a folha sem tocá-la. Sua tinta sem dúvida a macularia e, se fosse para dar um fim à pureza do papel, tinha que ser de maneira memorável.

“As forças contra o povo aliaram-se mais uma vez e vêm agora em minha direção.”

Imagens pulsavam diante de seus olhos. Imagens que ele mesmo jamais havia visto. Um homem caminhando apressadamente. O suor a lhe escorrer lentamente pela testa até o incomodar os olhos com sua salinidade típica.
Barulhos, também não ouvidos, se mesclavam – a combustão que impulsiona o projétil do Smith & Wesson 45 e o grito de dor e desespero daquele homem tão... asqueroso. Não passava de um cão ladrador, uma ameba insignificante. Mas bastaram alguns gramas de metal para que representasse a sua definitiva derrota.
Amassou a página e a jogou em um cesto ao lado de sua escrivaninha. Quem queria enganar? Maculara mais uma folha a toa. Não andava inspirado nos últimos dias desde a sentença capciosa lançada à imprensa:

“Lacerda levou um tiro no pé. Eu levei dois tiros nas costas.”

Os últimos dias haviam sido conturbado. Os últimos três anos, indescritíveis. Tudo era mais fácil uma década antes, quando todos o obedeciam como a um César romano ou mesmo como a um corso-francês Napoleão. Bons tempos que, a ele, ainda cheiravam a Novo. Velha era a mesma politicagem antes e depois de seus anos de glória. O que seria do futuro do povo? O que seria do SEU futuro?

Ainda tinha influência, ainda tinha poder, mas o tempo escasseava. Se realmente seguiria aquela linha de pensamento, era necessário agilidade – algo não muito simples para um senhor do alto dos seus 72 anos. Em menos de duas horas já estava em um avião.
O destino? O próprio Brasil. Não estava em fuga – estava em missão. Consigo, apenas alguns poucos assessores. Seu próprio irmão não sabia onde ele estava. E nem precisava. A única pessoa que precisava saber de sua viagem já havia sido informada uma hora antes por telegrama e já o esperava na pista de pouso.

- Padrinho!
- Como estás, meu filho?

Um abraço caloroso, sorrisos e uma curta viagem até a casa do seu afilhado político.

- Fico feliz que tenha conseguido vir, em meio à conturbada situação.
- Já me esperavas?
- A inauguração da Siderúrgica Mannesman. Ou teria o senhor esquecido?
- De forma alguma – mentiu a velha raposa. Mas deixemos os negócios para depois. Primeiro, quero saber como tens passado.
- Claro, claro. Sarah. Sarah!
- Sim, querido?
- Você poderia nos trazer uns petiscos?
- Padrinho. Não sabia que era o senhor. Como está?
- Bem, obrigado. E tu, como estás?
- Bem também. Se o senhor me dá licença, volto em breve com o pedido de meu marido.
- Tens toda

A conversa alongou-se pela tarde e chegou à noite. No dia seguinte, cumpriu o compromisso político e, pouco antes de embarcar, ainda não tinha tido coragem para confessar seu hábil plano. Seu afilhado, ao abraçá-lo em despedida, perguntou:

- E então, padrinho? O que o senhor tem a me dizer?
- Não muito. Apenas... Prepara-te.
- Preparar-me? Como assim?
- Em breve ocuparás minha poltrona no palácio.
- Não entendo.
- Em breve entenderás.

Mais um abraço. Dessa vez, mais longo que o normal. Caso, antes de entrar no avião, tivesse olhado para trás, teria percebido um olhar atônito e preocupado no rosto de Kubitschek. Sentiu-se mais uma vez inspirado. Pegou sua boa e velha caneta Parker e rabiscou as folhas a seu alcance, enquanto voavam de volta ao Rio de Janeiro:

“Mais uma vez, as forças e os interesses contra o povo coordenaram-se novamente e se desencadeiam sobre mim.”

Isso. Era exatamente ISSO que ele queria!

“Não me acusam, insultam; não me combatem, caluniam e não me dão o direito de defesa. Precisam sufocar a minha voz e impedir a minha ação, para que eu não continue a defender, como sempre defendi, o povo e principalmente os humildes. Sigo o destino que me é imposto. Depois de decênios de domínio e espoliação dos grupos econômicos e financeiros internacionais, fiz-me chefe de uma revolução e venci. Iniciei o trabalho de libertação e instaurei o regime da liberdade social. Tive de renunciar. Voltei ao Governo nos braços do povo. A campanha subterrânea dos grupos internacionais aliou-se à dos grupos nacionais revoltados contra o regime de garantia do trabalho. A lei de lucros extraordinários foi detida no Congresso. Contra a justiça da revisão do salário mínimo se desencadearam os ódios. Quis criar a liberdade nacional na potencialização das nossas riquezas através da Petrobras, mas mal começa esta a funcionar e a onda de agitação se avoluma. A Eletrobrás foi obstaculizada até o desespero. Não querem que o trabalhado, seja livre. Não querem que o povo seja independente.”

A cada palavra grafada, achava-se um gênio. E tinha certa razão.

“Assumi o Governo dentro da espiral inflacionária que destruía os valores de trabalho. Os lucros das empresas estrangeiras alcançaram até 500% ao ano. Na declaração de valores do que importávamos existiam fraudes constatadas de mais de 100 milhões de dólares por ano. Veio a crise do café, valorizou-se o nosso principal produto. Tentamos defender seu preço e a resposta foi uma violenta pressão sobre a nossa economia a ponto de sermos obrigados a ceder.”

Terminou o último ponto e pediu a um de seus assessores uma dose de uísque. A partir daquele ponto, não precisava mais de fatos concretos, mas sim de um texto eletrizante como eram os seus inflamados discursos de outrora. Mas o rompante inspirador havia se exaurido e o velho senhor lutava contra o sono que lhe assediava.

De volta à cidade grande, cumpriu mais alguns compromissos enquanto os dias passavam com uma velocidade pornográfica. A cada dia, a opinião pública se opunha mais e mais à sua figura. A cada dia, o asqueroso conseguia mais e mais adeptos, mais e mais seguidores. Sabia que tinha pouquíssimo tempo. Precisava terminar o seu texto.

Na manhã do dia 23, seu irmão o informou da reunião ministerial. Parecia que seu ministro da Guerra, Zenóbio da Costa, havia sido envenenado pela lábia mordaz de Lacerda. Era hora de transformar o desespero da proximidade em inspiração. Pegou as folhas, intocadas por mais de uma semana, e pôs-se a escrever de supetão:

“Tenho lutado mês a mês, dia a dia, hora a hora, resistindo a uma pressão constante, incessante, tudo suportando em silêncio, tudo esquecendo a mim mesmo, para defender o povo que agora se queda desamparado. Nada mais vos posso dar a não ser meu sangue. Se as aves de rapina querem o sangue de alguém, se querem continuar sugando o povo brasileiro, eu ofereço em holocausto a minha vida. Escolho este meio de estar sempre convosco Quando vos humilharem, sentireis minha alma sofrendo ao vosso lado. Quando a fome bater à vossa porta, sentireis em vosso peito a energia para a luta por vós e vossos filhos. Quando vos vilipendiarem, sentireis no meu pensamento a força para uma reação. Meu sacrifício vos manterá unidos e meu nome será a vossa bandeira de luta. Cada gota de meu sangue será uma chama imortal na vossa consciência e manterá a vibração sagrada para a resistência. Ao ódio, respondo com o perdão. E aos que pensam que me derrotaram, respondo com a minha vitória. Era escravo do povo e hoje me liberto para a vida eterna. Mas esse povo de quem fui escravo não mais será escravo de ninguém. Meu sacrifício ficará para sempre em sua alma e meu sangue será o preço do seu resgate.”

- Senhor Presidente, a reunião se inicia em dez minutos!

Havia ficado a tarde inteira escrevendo, mas não sentira o tempo passar. Sentia-se um Liszt diante de uma Rapsódia, mas não era hora para massagear o ego: tinha um golpe pela frente.

A reunião varou a madrugada. Já cansado e irritado, levantou-se de súbito e disse aos presentes:

- Reconheço a intenção dos senhores ministros nessa reunião e posso lhes assegurar que terão seu objetivo cumprido. Entretanto, peço que respeitem a mim, a meus anos e a meus cabelos brancos. Hoje, saio daqui com uma licença. Durmo presidente. Acordo como os senhores bem entenderem.

Retirou-se da reunião e passou em seu escritório. Pegou as folhas rabiscadas e as meteu em seu casaco. Pôs-se a descer as escadarias com uma velocidade absurda. Estava louco para ganhar o frescor do orvalho que o aguardava fora daqueles vis portões. Quando chegou ao pé da escada, passos rápidos o alcançaram:

- Senhor presidente, senhor presidente!
- Senhor ministro da Justiça. A que devo a honra?
- Senhor presidente, venho em meu nome dizer que nem todos concordam com a decisão do conselho ministerial. Saiba que o senhor ainda tem a minha lealdade.
- Ora, senhor ministro, – disse, abrindo um sorriso – como poderia eu não considerar sua lealdade e, ainda mais, sua amizade?
- Agradeço as palavras, senhor presidente. – e virou as costas.
- Ministro. Espere.
- Sim, senhor?
- Quero lhe dar algo. – disse ao enfiar a mão dentro do casaco – Aqui. A minha caneta.
- A sua Parker 51 em ouro?
- Ela mesma.
- Senhor presidente, é um presente muito generoso, mas eu não posso aceitar.
- Mas irá. Ela será mais proveitosa em suas mãos do que nas minhas.
- Bom, se o senhor insiste... Muito obrigado, senhor presidente. Farei bom uso dela.
- Tenho certeza que sim, ministro Tancredo.

Ao chegar a sua casa, tomou banho e colocou seu velho pijama listrado. Sua esposa dormia em outro quarto quando seu irmão, Benjamin, veio lhe dar a não surpreendente notícia:

- O ministro da Guerra disse após o senhor sair da reunião que dessa licença o senhor não volta.
- Então já me depuseram...
- ...

Sem graça, o irmão do presidente saiu do quarto e o deixou acompanhado apenas de uma dose de uísque. Tomou um gole e se pôs a fazer um balanço da sua vida. Lembrava de seus sonhos de garoto, quando queria seguir carreira militar. Lembrava do seu curso de Direito em Porto Alegre.
É...
Para quem vinha de São Borja, até que ela havia crescido bastante na vida. Entretanto, suas memórias não conseguiam ultrapassar um curioso fato passado com seu irmão durante a Revolução de 32. Após passarem por um cartaz que mostrava um bandeirante segurando um mosquete em uma mão e o presidente na outra, Benjamin lhe inquiriu:

- Irmão... O que faremos caso os paulistas vençam?
- Você, meu querido, eu não sei. Já eu...
- Sim?
- Eu sempre trago comigo uma carta, uma bala e uma arma.

Era hora de terminar a sua carta. Preencheu a data, assinou a folha, e escreveu seu último parágrafo:

“Lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as infâmias, a calúnia não abateram meu ânimo. Eu vos dei a minha vida. Agora, ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente, dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na história.”

Na escrivaninha, ficara uma carta. Na mão direita, uma Colt calibre 32. E em seu peito falecido, a imortalidade do mártir em um coração dilacerado por uma bala.
Era um homem de palavra.

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